Criação literária independente

Criação literária independente

Hoje participei do primeiro encontro Contextos Literários, uma série de atividades organizada pelo SESC para discutir temas da literatura e do mercado editorial. Os seis encontros deste primeiro bimestre acontecerão semanalmente às segundas, 19h15, no Sesc Consolação e terão como foco a literatura independente.

Em um debate sobre a Criação literária independente, Carol Rodrigues, vencedora do prêmio Jabuti 2016 na categoria contos, conversou com seu editor, Vanderley Mendonça, um dos fundadores da Editora Edith. Ambos contaram um pouco sobre suas experiências de autora e editor no mercado editorial independente e dos principais desafios desse modelo literário nos dias de hoje.

Estímulo a novos escritores

Vanderley conta que o principal objetivo da Edith, editora que criou junto com o escritor Marcelino Freire, não é receber originais ou calcular lucros, mas sim buscar talentos e estimular que cada vez mais gente escreva e seja publicada. Os prêmios, por exemplo, não são o principal objetivo dos editores, que procuram conhecer a produção literária que vai além do Sudeste brasileiro e publicar essas novas vozes.

Para Vanderley, a relação dos autores com as editoras mudou e para ele interessa mais um autor engajado em todo o processo da produção, inclusive na divulgação e venda. Livrarias? Nem pensar. Mesmo com as dificuldades de distribuição, prefere manter as vendas apenas online ou em eventos.

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Segundo Carol, “pequenas editoras são o olhar do editor”.

Sem vista para o mar

Carol Rodrigues só começou a escrever Sem vista para o mar depois de se desapegar, com ajuda das oficinas do escritor Marcelino Freire, da ideia de publicar um romance que havia escrito durante seu mestrado na França. “Foi tudo bem clichê, inverno, sozinha em outro país”, conta. No fim das contas, o romance inacabado virou um laboratório da linguagem que usaria em seus contos, mas sem sair de seu objetivo principal: a vontade de comunicar  e contar uma história.

Para Carol a edição do livro foi fascinante: “Não sabia nada [sobre edição] antes, e acompanhei todos os processos”. A capa, aprovada ainda nos rascunhos, foi criada por uma amiga da autora. A foto e o texto da orelha também foram colaborações amigas. Agora a jovem escritora se divide entre seu trabalho no Itaú Cultural e seu segundo livro.

A formação de leitores

Um assunto que veio à tona durante a conversa foi o da formação de leitores perante os números alarmantes da leitura no Brasil. Carol citou as Jornadas Literárias, que fizeram de Passo Fundo a capital da literatura no país, além de outras feiras literárias que estimulam a leitura por onde passam. Já Vanderley falou dos desafios que os autores e editoras independentes enfrentam para chegar às escolas, já que falta formação também para os professores, muitas vezes fechados a novidades e focados em clássicos literários.

Para o editor, é nítida a comoção e o interesse das pessoas que assistem à leitura de um texto por seu próprio autor. O que faltam são oportunidades para esse encontro entre leitores e escritores, principalmente dentro das escolas. O principal desafio é esse: ir mais longe, alcançar mais gente e unir forças com outras microeditoras e autores independentes.

Na próxima segunda, dia 18/01, Diego Moraes e Claudio Daniel conversarão sobre Feiras literárias. Veja aqui a programação completa do evento. Os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes do início do debate. Mas caso não consiga ir em algum, não tem problema, o áudio de todos os encontros será disponibilizado pelo Sesc em breve.

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A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket

A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket

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Esse foi o primeiro livro do John Boyne que eu li. Comprei ele por acaso, sem pensar muito e, confesso, fui atraída pelas ilustrações divertidas. Eu adoro livros infantis, na maioria das vezes eles tem muito mais a dizer aos adultos do que às crianças. A história, por trás de um enredo fantástico, fala sobre as diferenças, as dificuldades em lidar com elas e sobre as relações familiares.

Barnaby Brocket nasceu em uma família orgulhosa por ser “completamente normal”, seus pais odeiam chamar atenção para si e têm verdadeiro horror de tudo que é “anormal”. Realmente, suas vidas eram muito normais, tiveram dois filhos bastante normais e tinham empregos também normais. Nunca saíram da Austrália, nem mesmo de Sidney, porque consideravam estranho sair por ai explorando outros lugares. Até que Eleanor Brocket deu a luz a seu terceiro filho, em uma noite de sexta-feira, o que já causou constrangimento na mulher, por estar estragando outros planos que os médicos poderiam ter.

Imaginem então a surpresa da mãe e de todos os presentes, quando o bebê, ao sair da barriga da mãe, começou a flutuar até bater a cabeça no teto. Barnaby Brocket passou a ser uma exceção naquela familia toda cheia de regras e era visto como uma aberração por seus pais, que não ousavam levar ele nem até a esquina, afinal, o que os vizinhos iriam pensar?

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Barnaby cresceu dentro de sua casa, adaptada ao seu “problema” com colchões fofinhos em todos os tetos. Seus pais até tentavam, mas não conseguiam se adaptar a essa anomalia do filho e faziam de tudo para impedi-lo de conviver com as crianças normais de sua idade. Apesar de ser um menino muito inteligente, foi colocado em uma instituição para crianças indesejadas e seus principais companheiros eram os livros, gostava de ler principalmente histórias de meninos órfãos – talvez por se identificar com eles, já que praticamente nasceu órfão, sem o amor dos pais. A coisa terrível que aconteceu com ele, não é muito difícil de descobrir, a própria capa já nos revela bastante, mas acabou que ela não foi tão horrível assim.

O menino, com apenas oito anos, sai flutuando pelos ares e se envolve em uma aventura ao redor do mundo. Nessa trajetória, conhece diversas pessoas que, assim como ele, são “anormais” e não foram aceitas por seus familiares desse jeito. Viaja de balão, de trem e até de espaçonave, conhece lugares como o Brasil, Estados Unidos, Canadá, Irlanda… e em cada uma dessas paradas conhece alguém especial, que consegue mudar seu jeito de ver o mundo e ele também muda a vida de cada uma delas.

Depois de tantas viagens, Barnaby percebe que ser normal ou anormal é muito relativo. Conhece tantas pessoas e coisas diferentes, que passa a ver a diferença não como uma exceção, mas sim como algo…normal.

Livro: The terrible thing that happened to Barnaby Brocket – John Boyne – 2013 – Companhia das Letrinhas

Ilustrações maravilhosas de Oliver Jeffers.

Adultos sem filtro e outras crônicas

Adultos sem filtro e outras crônicas

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Comecei a pensar um pouco sobre minhas leituras ultimamente e percebi que estava faltando alguma coisa. Estava super focada em ler os materiais da faculdade, de ter contato com as grandes obras da literatura, mas faltava o essencial: um livro para o cotidiano e sobre o cotidiano. Ninguém consegue ler Tolstói ou Nietzsche dentro de um ônibus sacolejante ou durante a espera do dentista – pelo menos eu não consigo. Cheguei a “Adultos Sem Filtro” assim, à procura de um livro para levar na bolsa e ler quando quisesse. Ele cumpriu exatamente esse papel.

Thalita Rebouças é super reconhecida como autora de livros infanto-juvenis, eu lembro de ter lido “Tudo Por um Pop Star” a muito tempo e pensar que ela é como uma Meg Cabot brasileira – era viciada na Meg Cabot na época, mas quem não era? Enfim, na minha busca por um livro-para-ler-em-qualquer-lugar me deparei com essa, que é a primeira publicação de Thalita voltada para adultos. Uma compilação de crônicas que a autora escreveu para o site da VEJA Rio, entre outras que tinha guardadas, unidas e separadas por tema. Tudo com muito bom humor.

Desde taxista sentimental até uma senhora pedindo o telefone da Fernanda Torres, tudo é narrado de forma muito engraçada e o conjunto das crônicas acaba revelando muito sobre a personalidade da própria autora. Como em qualquer livro desse tipo, há altos e baixos, algumas muito boas, outras mais fracas. O livro entrega o que promete, uma leitura agradável e descompromissada que fica nítida desde a capa divertida da editora Rocco. Posso garantir que é mais gostoso do que ler a Caras no cabeleireiro.


Adultos Sem Filtro e outras crônicas 
– Thalita Rebouças – 2012 – Editora Rocco

As Vantagens de Ser Invisível

As Vantagens de Ser Invisível

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Para falar de “As Vantagens de Ser Invisível” nem preciso separar a resenha em duas. O livro e sua adaptação tem tanta sintonia, que chegam a ser quase a mesma coisa, um completa o outro – o que já era de se esperar, já que o diretor do longa é o próprio Stephen Chbosky. O filme dá vida e música – com uma trilha sonora incrível, por sinal – a tudo aquilo que o livro conta.

Charlie acaba de entrar no colegial e precisa encarar sua posição de novato na escola. Sua percepção sobre tudo a seu redor é bastante peculiar, isso graças a todos os problemas que encarou na vida – o suicidio do melhor amigo e a morte de sua tia. No começo tudo é muito complicado e ele se sente como um alienígena, até que começa a conversar com seu professor de literatura, que consegue entender sua personalidade. A maior mudança, porém, ocorre quando Charlie conhece Patrick e Sam – um casal de irmãos veteranos que vai mudar totalmente sua vida, dentro e fora da escola.

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A parte mais gostosa é acompanhar os pensamentos e descobertas de Charlie, mergulhar em sua mente ingênua e inteligente. Algumas cenas simples são expressas de maneira tão delicada que viram momentos marcantes. Toda a obra é cheia de referências a livros da literatura clássica americana e a álbuns de bandas famosas da época.

Para prolongar um pouquinho o envolvimento com a obra vale a pena baixar a trilha sonora do filme, principalmente a música Heroes do David Bowie, a famosa “música da cena do túnel”. Quando ler/assistir aposto que você também vai querer ouvir de novo e se sentir infinito.

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Apesar de ter sido publicado em 1999, o livro segue a tendência bastante atual da sick-lit – nomenclatura infeliz dada aos livros young-adult que tratam de doenças e assuntos psicológicos complicados. Dois exemplos bastante atuais dessa modalidade são A Culpa é das Estrelas e O Lado Bom da Vida. Mas de doente essa literatura não tem nada: as interpretações mais profundas escondem-se sob a linguagem informal, mas uma boa leitura pode gerar reflexões valiosas para jovens e adultos.

Livro: The Perks of Being a Wallflower – Stephen Chbosky – 1999 – Editora Rocco

Filme: idem – idem – 2012 – 102 min – IMDb

O Lado Bom da Vida

O Lado Bom da Vida

o-lado-bom-da-vida-pipoca-cafe-e-cinema-500x263Livro: Silver Linings Playbook – Matthew Quick – 2008 – 256 pág. – Ed. Intrínseca

Filme: Idem – David O. Russel – 2013 – 122 min – IMDb 

O Lado Bom da Vida foi uma leitura que já começou sendo especial. Foi o primeiro livro que eu li inteiro no Kindle, me envolvi tanto que nem percebi a diferença e nem tive dificuldade para me adaptar. É impossível não relacionar essa obra a outras que estão fazendo sucesso hoje, como As Vantagens de Ser Invisível e A Culpa é das Estrelas. Todas as três tratam de dramas complicados, narrados de maneira bem humorada e com muito foco na personalidade do protagonista.

Toda a história é contada pelo ponto de vista de Pat, que está internado em um hospital psiquiátrico, mas não lembra bem o porquê e nem quanto tempo isso já dura. Tudo que ele quer é sair desse “lugar ruim” e terminar o que ele chama de “tempo separados” com sua mulher, Nikki. Para isso, ele passa horas praticando exercícios físicos e decide ver apenas o lado bom de tudo, na esperança de reconquista-la. Sair desse lugar não vai ser fácil, ainda mais quando ele descobre que passou anos lá e que não pode nem chegar perto de Nikki.

Silver Linings Playbook

Nesse cenário extremamente confuso, duas pessoas vão ser essenciais na readaptação de Pat à sociedade: Tiffany, a cunhada viúva de um amigo, que passou por momentos horríveis tentando superar a morte do marido e tem tantas crises quanto Pat; e Dr. Cliff, o psiquiatra, que é responsável por vários diálogos interessantes do livro e acaba virando amigo de Pat fora do consultório, já que ambos são torcedores fanáticos dos Eagles.

O mais interessante de ler O Lado Bom da Vida é saber de tudo pelo ponto de vista do protagonista, mas ainda assim ter uma visão geral e saber a verdade por trás da ilusão criada pelo personagem. Com o passar das páginas você começa a ficar indignado que Pat ainda não tenha entendido a situação e não aguenta mais ler sobre “o fim do tempo separados”, e isso só faz você entrar mais no universo do livro. O autor soube passar a personalidade do protagonista para a linguagem do livro, usando repetições de palavras, expressões e até páginas inteiras, para representar sua mente como um turbilhão de ideias.

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A adaptação da obra para o cinema está indicada a 8 Oscars, incluindo melhor filme, direção, ator e atriz. Foram muitas as mudanças feitas no roteiro e isso pode incomodar aqueles que se envolveram muito na leitura. Manteve-se a maneira bem humorada de tratar assuntos complicados e todo o elenco conseguiu captar a essência dos personagens criados por Matthew Quick. O filme não dá tanta voz aos coadjuvantes, focando mais na relação peculiar entre Pat e Tiffany, muito bem interpretada por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Apesar da abordagem diferente, a essência do livro permanece na adaptação e uma obra acaba complementando a outra. Vale a pena ler e assistir, não importa em que ordem.

Leviatã: A Missão Secreta

Leviatã: A Missão Secreta

Leviata-A-Missao-Secreta-3canecas[1]_thumb[1]Leviathan – Scott Westerfeld – 2009 – 365 páginas – Galera Record

Leviatã é um livro gostoso de ler, mas complexo de explicar em poucas palavras. Antes de conhecer a obra em si, você precisa saber um pouco sobre o gênero do qual ela faz parte. O Steampunk mistura o passado com o futuro, a realidade com a ficção. Steam (vapor), remete às máquinas introduzidas na Revolução Industrial. Punk representa a quebra com a forma tradicional de ilustrar a Era Vitoriana e o passado como um todo.

Usando esse estilo em Leviatã, Scott Westerfeld reconta a Primeira Guerra Mundial a seu modo. As potências envolvidas são as mesmas da História, o que muda é a forma de batalhar e, principalmente, os armamentos utilizados. De um lado os mekanistas alemães, que usam mecânica altamente avançada para produzir suas máquinas, criando gigantes blindados. Do outro estão os darwinistas britânicos, que baseiam-se nas teorias de Darwin para desenvolverem animais geneticamente modificados, usados como verdadeiros monstros de guerra.

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Nesse cenário conhecemos Alek, que após a morte de seu pai, o arquiduque Franz Ferdinand, é obrigado a fugir de sua própria família. O menino é herdeiro do trono Austro-Hungaro, mas não é reconhecido como tal devido ao casamento não nobre do pai. Do outro lado temos Deryn, uma jovem fascinada por aeronáutica que vai contra as regras e entra na Força Aérea britânica fingindo ser um menino.

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Por mais confuso que pareça todo o enredo flui naturalmente. O passado alternativo criado por Scott é verossímil e cheio de descrições detalhadas. Para ajudar, o livro conta com ilustrações lindas que fazem o leitor visualizar melhor o universo imaginado. Esse formato é inusitado, mas tem um propósito: os livros da época retratada no romance (1914), mesmo os adultos, eram todos ilustrados.

Confesso que não recomendaria nada do Scott Westerfeld a algum tempo atrás. Apesar do sucesso que fez, a série Feios me decepcionou bastante. Mudei muito meu conceito após ler Leviatã, os próximos livros da série (Behemoth e Goliath) já foram lançados e suas edições brasileiras ainda não foram anunciadas pela Galera Record.

A Menina do Vale

A Menina do Vale

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A Menina do Vale – Bel Pesce – 158 páginas – Ed. Casa da Palavra

A história da brasileira Bel Pesce já foi assunto em tudo quanto é lugar, afinal, não é qualquer um que entra no MIT e aos 24 já é sócia de uma empresa de tecnologia (a Lemon). Aproveitando esse momento, Bel resolveu escrever sobre suas experiências e publicar um livro, que foi distribuido gratuitamente na internet e depois ganhou versão impressa, a pedido dos leitores.

A Menina do Vale não é uma biografia, muito menos um manual específico sobre como empreender. O livro é curto, tem linguagem bastante fluente e ideias claras. Dividido em 22 pequenos capítulos, segue como uma série de conselhos para aqueles que estão pensando em começar um negócio. As informações são bastante superficiais, sem grandes relatos sobre o cotidiano no MIT ou nas empresas em que trabalhou, mas isso não chega a estragar o conjunto. Os relatos de Bel são inspiradores para o jovens sonhadores e importantes para mostrar que não existe idade para começar um projeto. O próprio livro serve de ponto de partida e traz indicações de leituras mais aprofundadas sobre os assuntos tratados.

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O principal ponto em A Menina do Vale é a montagem de uma startup, ou seja, uma pequena empresa que começa com pouco capital mas cresce rapidamente gerando lucros (definição bem simples já que o conceito é amplo). Bel fala sobre todos os desafios para esse começo, desde os relacionamentos com sócios e investidores, até os sentimentos pessoais de superar suas próprias barreiras.

No link abaixo você encontra o texto integral em PDF – as ilustrações são bem legais nas duas versões, deixaram o livro bem divertido.

A Menina do Vale – PDF