A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket

A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket

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Esse foi o primeiro livro do John Boyne que eu li. Comprei ele por acaso, sem pensar muito e, confesso, fui atraída pelas ilustrações divertidas. Eu adoro livros infantis, na maioria das vezes eles tem muito mais a dizer aos adultos do que às crianças. A história, por trás de um enredo fantástico, fala sobre as diferenças, as dificuldades em lidar com elas e sobre as relações familiares.

Barnaby Brocket nasceu em uma família orgulhosa por ser “completamente normal”, seus pais odeiam chamar atenção para si e têm verdadeiro horror de tudo que é “anormal”. Realmente, suas vidas eram muito normais, tiveram dois filhos bastante normais e tinham empregos também normais. Nunca saíram da Austrália, nem mesmo de Sidney, porque consideravam estranho sair por ai explorando outros lugares. Até que Eleanor Brocket deu a luz a seu terceiro filho, em uma noite de sexta-feira, o que já causou constrangimento na mulher, por estar estragando outros planos que os médicos poderiam ter.

Imaginem então a surpresa da mãe e de todos os presentes, quando o bebê, ao sair da barriga da mãe, começou a flutuar até bater a cabeça no teto. Barnaby Brocket passou a ser uma exceção naquela familia toda cheia de regras e era visto como uma aberração por seus pais, que não ousavam levar ele nem até a esquina, afinal, o que os vizinhos iriam pensar?

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Barnaby cresceu dentro de sua casa, adaptada ao seu “problema” com colchões fofinhos em todos os tetos. Seus pais até tentavam, mas não conseguiam se adaptar a essa anomalia do filho e faziam de tudo para impedi-lo de conviver com as crianças normais de sua idade. Apesar de ser um menino muito inteligente, foi colocado em uma instituição para crianças indesejadas e seus principais companheiros eram os livros, gostava de ler principalmente histórias de meninos órfãos – talvez por se identificar com eles, já que praticamente nasceu órfão, sem o amor dos pais. A coisa terrível que aconteceu com ele, não é muito difícil de descobrir, a própria capa já nos revela bastante, mas acabou que ela não foi tão horrível assim.

O menino, com apenas oito anos, sai flutuando pelos ares e se envolve em uma aventura ao redor do mundo. Nessa trajetória, conhece diversas pessoas que, assim como ele, são “anormais” e não foram aceitas por seus familiares desse jeito. Viaja de balão, de trem e até de espaçonave, conhece lugares como o Brasil, Estados Unidos, Canadá, Irlanda… e em cada uma dessas paradas conhece alguém especial, que consegue mudar seu jeito de ver o mundo e ele também muda a vida de cada uma delas.

Depois de tantas viagens, Barnaby percebe que ser normal ou anormal é muito relativo. Conhece tantas pessoas e coisas diferentes, que passa a ver a diferença não como uma exceção, mas sim como algo…normal.

Livro: The terrible thing that happened to Barnaby Brocket – John Boyne – 2013 – Companhia das Letrinhas

Ilustrações maravilhosas de Oliver Jeffers.

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Leite Derramado

Leite Derramado

Leite Derramado – Chico Buarque – 2009 – 195 páginas – Cia das Letras

Um homem centenário conta suas memórias em um leito de hospital humilde, confessa seus segredos mais íntimos a enfermeiras e transeuntes pouco interessados. O leitor é o ouvinte mais atento entre os que observam esse cenário, o único que acompanha tudo que é dito do começo ao fim e pode ligar as pontas soltas do discurso do idoso.

Afetado pelo efeito dos medicamentos e da idade avançada, os relatos apresentam-se de maneira entrecortada e repetitiva, que até enjoaria não fosse a percepção de que nada ali é feito por acaso. Com o passar do romance a visão que temos do narrador amadurece e fica clara sua parcialidade, sua capacidade de escolher o que falar de mais e de menos. Ilusões, fantasias, preconceitos e muita ironia…tudo fica nas entrelinhas. Muitas vezes me peguei rindo de uma frase muito maquiada, escondendo algum defeito inconfessável, como faria o próprio Dom Casmurro. A influência de Machado é clara e se faz presente do começo ao fim, adaptada com talento à literatura contemporânea.

A história narrada por Eulálio d’Assumpção é um retrato completo do Brasil dos últimos séculos. Desde o avô ligado à corte de D. Pedro I e o pai conservador que vivia aventuras eróticas na Europa e mantinha amantes sob o nariz da mulher, até o neto comunista que acaba desaparecido durante o regime militar. Antes e depois deles viveram muitos Eulálios Junior, Neto, Filho…que traçaram a linhagem heterogênea dos Assumpção ao longo dos tempos. O ponto principal que guia o enredo, porém, é Matilde e sua trajetória de amor e ódio com Eulálio desde sua infância até o matrimônio, o manicomio e, enfim, a morte.

Uma série de combinações improváveis de épocas e espaços resultam num relato sucinto e verossímil, cada personagem tem sua relevância e complexidade psicológica. Quem espera acontecimentos surpreendentes vai se decepcionar com o livro: a narrativa segue em ritmo constante, apesar de não cronológico. A beleza fica mesmo por conta das reflexões, expostas por meio de linguagem acessível e pouco rebuscada, muita coisa pode passar batida e parecer sem sentido a um leitor que trate a obra de maneira superficial.

Sentimento do Mundo

Sentimento do Mundo

Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade – 1940

Cia. das Letras – edição de bolso – 2012

“Sentimento do Mundo” é um dos novos livros da lista obrigatória da Fuvest e chega esse ano às mãos de milhares de jovens com a temida alcunha de “leitura para vestibular”. Tenho que admitir que assim como qualquer outro estudante eu não sou a maior fã dessa relação. José de Alencar, Almeid Garret e Eça de Queirós juntos podem sim causar sono nos leitores mais preparados. Por essas e outras, essa é uma resenha de apelo: por favor, dêem uma chance ao Drummond! Ele pode ser o salvador do tédio dos estudos de literatura (com ajuda de Jorge Amado, outro grande nome que não sai da lista a um bom tempo).

O livro contendo 28 poemas foi publicado em 1940, no contexto do Estado Novo de Getúlio Vargas e da ascensão dos regimes totalitários nazistas e fascistas na Europa. Não é a toa que a atmosfera negativa se faz presente em todas as páginas. Seja por meio de crítica ou ironia, o autor usa da única arma que tem em mãos para (tentar) entender e denunciar o mundo que vê: as palavras.

O primeiro poema, que empresta o título ao livro, já mostra muito de um eu-lírico que assiste as catástrofes do mundo e não pode fazer nada. As primeiras páginas desse livro são repletas de pessimismo, de falta de perspectiva, de nostalgia do autor ao lembrar de sua terra natal. Acompanhamos a reviravolta dessa visão em “O Operário no Mar”, que mostra a ascensão, mesmo que pequena, de uma classe que luta por seus direitos e vai de encontro à burguesia dominante. Junto à essa mudança aparece uma pontinha de esperança e o eu-lírico chega a aspirar: “Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?” A estrutura do poema também acompanha essa quebra: em prosa, sem versos, mas cheio de linguagem poética.

A partir desse ponto o foco passa a ser a crítica à burguesia e sua alienação perante os eventos do mundo. Um eu-lírico bem mais irônico aparece em “Privilégio do Mar” e “Inocentes do Leblon”, para denunciar a ignorância dos ricos que se fecham em seus caros apartamentos para fugirem da dura realidade. Essa ideia fica bem sintetizada no verso: “O mundo é mesmo de cimento armado”.

O pessimismo e a visão quase apocalíptica continua aparecendo em poemas como “Canção de Berço” e “Os Ombros Suportam o Mundo”. A nostalgia volta a ter vez na linda “Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro”, dedicada a Manuel Bandeira e em “Lembrança do Mundo Antigo”, carregado de ironia e triplas exclamações que reforçam a indignação do poeta.

Os últimos textos apresentam como novidade o sentido solidário do autor, que aparece muito nítido em “Mãos Dadas” e “Mundo Grande”. Nesse momento os pontos ressaltados são: a falta de comunicação entre os homens, a valorização do tempo presente e a esperança de um futuro mudado. Renunciando aos seus temas pessoais o poeta passa a ter consciência de grupo, mostrando assim mais do seu posicionamento político socialista, criticando fortemente o capitalismo em “Elegia 1938” (chega a chamar o Mundo de Grande Máquina).

Tentando achar um paralelo com o mundo moderno não pude deixar de pensar nos grafites do Banksy, carregados de críticas à alienação, às guerras e ao capitalismo. São muitas as obras do artista espalhadas pelo mundo, entre elas muitas estão em Londres, como a famosa imagem de dois policiais se beijando.

Outras leituras de vestibular:

Til – José de Alencar

Especial – Contos

Especial – Contos

Os contos de fadas são, geralmente, as primeiras histórias de ficção que conhecemos, quando ainda nem sabemos o que é a literatura. As fábulas de esopo vem em seguida, ou simultaneamente, com seus animais falantes, contos curtos e simples com grandes ensinamentos. O que mais admiro nos contos, e em seus autores, é a capacidade de expressar muito usando poucas palavras, passar para o papel somente o necessário e deixar que a imaginação do leitor complete lacunas. Alguns contos, com suas poucas páginas, geram mais discussão que extensos livros. Vou apresentar aqui alguns livros de contos que me marcaram:

Título: Antes do Baile Verde

Autora: Lygia Fagundes Telles

Ano: 2009

Editora Cia. das Letras

205 páginas

Constituido por 18 contos o livro foi publicado em 1970. A análise psicológica das personagens é o objetivo principal de cada conto. Alguns ambientes são descritos de forma quase irreal, onírica, oscilando entre o real e o imaginário (recurso utilizado pelos autores do chamado realismo fantástico). O contraste entre aparência e essência mostra-se presente em famílias de classe média alta que preferem esconder seus problemas à lidar com eles. A narrativa é lenta, muitas vezes misteriosa, mas não é cansativa ou tediosa. A maioria das histórias não tem o desfecho revelado, cabendo ao leitor tirar suas próprias conclusões. Cada conto possui suas peculiaridades, mas alguns são especialmente envolventes. Antes do baile verde, o conto que empresta o título ao livro, representa o egoísmo da filha que ignora o pai enfermo para aproveitar o carnaval. A Janela conta a história do pai apegado à lembrança do filho falecido. O Jardim Selvagem retrata a mulher que foge às normas de conduta e o mistério gerado por seu comportamento. Venha Ver o Pôr do Sol é um famoso conto da autora, representa a loucura de um apaixonado, o egoismo em sua forma mais cruel.

Título: Gothica

Autor: Gustave Flaubert

Ano: 2006

Berlendis & Vertecchia Editores

126 páginas

Essa edição traz uma ótima apresentação de Raquel de Almeida Prado, que nos apresenta um Flaubert completamente diferente do conhecido em Madame Bovary, mais jovem e inspirado por grandes autores como Diderot e Mary Shelley o autor escreve seus primeiros contos, voltados para o gênero gótico. O realismo passa longe dessa obra, sem burgueses ou descrições excessivamente detalhadas. A linguagem sombria utilizada nos 5 contos do livro abre alguns espaços para a ironia, presente principalmente em O Funeral do Doutor Mathurin, no qual um cadáver é levado para “passear” pelos bares da cidade. É interessante conhecer o autor por uma diferente perspectiva, não é preciso ser um amante do gênero para aproveitar as pequenas histórias que oscilam entre o terror, a agonia e o humor.

Título: A Cartomante e outros contos

Autor: Machado de Assis

Ano: 2004

Editora Moderna

88 páginas

Geralmente utilizado nas escolas para promover o primeiro contato dos alunos com Machado de Assis, essa coletânea apresenta 12 pequenos contos. Suas histórias são focadas no psicológico das personagem, muitas informações ficam ocultas e a linguagem usada é bastante subjetiva. Machado usa sua ironia para criticar as relações sociais, ressaltar a hipocrisia e o egoismo da sociedade preocupada em manter as aparências.

Título: Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal

Organizador: Flávio Moreira da Costa

Ano: 2001

Editora Ediouro

546 páginas

Para quem gosta de contos vale ainda conferir essa coletânea dos 100 melhores contos de humor, uma coleção repleta de autores e contos variados, como Oscar Wilde, Julio Cortázar, Nelson Rodrigues, Lima Barreto… Bom para ler aos poucos e notar a grande diferença entre textos do mesmo gênero.

HQ e Filme – Persépolis

HQ e Filme – Persépolis

Título original: Persepolis

Autora: Marjane Satrapi

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2007

Páginas: 352

Sinopse: “Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.” (Cia. das Letras)

Peguei para ler Persépolis após ver sua ótima adaptação, o que já deixou minhas expectativas lá no alto. Foi publicado em 2001 dividido em 4 volumes, mas ganhou edição única em 2007. As páginas não tem marcação numérica, não sei exatamente o porque, mas gostei disso, deixa a leitura menos calculada e mais gostosa. Persépolis é uma autobiografia em quadrinhos, o que é muito original e envolvente. A autora estudou belas artes no Irã e se estabeleceu como autora e ilustradora na França. Decidiu escrever Persépolis para contar sua história aos amigos europeus e americanos. As ilustrações são lindas e, apesar de simples, conseguem retratar bem o desenvolvimento da vida de Marjane, tanto no aspecto histórico quanto psicológico (existem muitas passagens poéticas, como quando ela ainda criança conversa com Deus).

A educação de Marjane combinou a cultura persa com alguns valores ocidentais e de esquerda. A menina precisa de muita maturidade para enfrentar o período difícil pelo qual seu país passa, sendo obrigada a ver amigos, parentes e conhecidos serem presos ou até assassinados. Acompanhamos suas tentativas de entender a tirania, de se mobilizar contra o regime e de acompanhar seus pais em manifestações públicas. Vemos seus esforços para ler Marx, sua empolgação imaginando um mundo sem desigualdade, compartilhamos de suas interpretações ingênuas e de seus grandes sonhos. Na medida que amadurece Marjane fica cada vez mais rebelde, sempre questionando as determinações do vestuário em sua escola, comprando fitas de rock clandestinamente e sempre influenciando suas amigas a fazerem o mesmo.

Com medo da guerra Irã-Iraque, que se mostra cada vez mais violenta, os pais de Marjane resolvem mandá-la para a Aústria. Já adolescente, com seus 14 anos, ela percebe que a liberdade de um país capitalista não é exatamente o que ela imaginava. Os esforços para se enturmar na nova escola, somados com o sentimento de culpa por deixar seus familiares e amigos em um lugar tomado pela guerra, fazem com que Marjane se submeta às situações mais degradantes durante sua estadia. Há uma grande questão que envolve toda a história: a constante oposição e mudança de valores. Melhor esconder seus pensamentos para se manter vivo em um regime ditatorial? Melhor esconder suas origens para evitar o preconceito em um país desconhecido? São algumas das dúvidas que guiam a obra.

Filme

Ano: 2007

Duração: 96 min

Uma adaptação fiel que mantêm o mesmo nível de qualidade dos quadrinhos. A animação mantêm a atmosfera escura com tudo em preto e branco. O roteiro não sofre muitas alterações e tudo é muito bem executado. O longa estreou no festival de Cannes e foi indicado ao Oscar. Não vejo problema em assistir esse filme antes de ler os quadrinhos, já que as experiências são bem diferentes. No filme somos mais absorvidos pela história como um todo, mas não temos espaço o suficiente para entrar completamente nos sentimentos de cada personagem, de compartilhar suas angústias e dúvidas.

Livro e filme – Os homens que não amavam as mulheres

Livro e filme – Os homens que não amavam as mulheres

Título original: Män som hatar kvinnor (Suécia)

Autor: Stieg Larsson

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2008

Páginas: 522

Sinopse: “Henrik Vanger é um empresário aposentado da renomada Indústria Vanger que a quase 40 anos tenta descobrir o mistério em volta do desaparecimento de sua sobrinha, Harriet. Mikael Blomkvist é um jornalista econômico investigativo que é condenado por difamação após publicar informações polêmicas sobre Wennerström, um influente empresário sueco, perdendo assim toda sua credibilidade e grande parte de seu dinheiro. Lisbeth Salander é uma jovem hacker de 24 anos, melhor investigadora de uma empresa de segurança, é julgada por seus piercings e tatuagens, vive sozinha e do como quer, apesar de estar sob a custódia do Estado por seu histórico violento.  A história dos três se une quando Henrik resolve contratar Mikael para uma última tentativa de investigar o caso de Harriet. Na situação que se encontra o jornalista aceita o desafio, mesmo sabendo que a possibilidade de encontrar algo novo depois de tantos anos é muito remota. Ao analisar os arquivos Blomkvist encontra pistas inéditas e para dar continuidade ao trabalho precisa de alguém para ajuda-lo, para isso contrata Lisbeth. A dupla passa por diversas dificuldades tentando escavar o passado da família Vanger, com seus membros nada usuais que não gostam de ver estranhos se metendo em seus assuntos.”

A combinação da investigação econômica e policial colabora com a originalidade dessa obra. O próprio autor foi um influente jornalista e ativista político sueco, denunciou organizações neofascistas e racistas (imagino que vem dai vem a escolha pelo passado nazista de alguns membros da família Vanger e a facilidade de explicar as roubalheiras de Wennerström). Infelizmente, Stieg Larsson não viveu para ver o sucesso de seus livros, faleceu vítima de um ataque cardíaco em 2004, após entregar a trilogia aos seus editores. Sua ideia inicial era fazer uma série de 10 volumes.

O título de Os homens que não amavam as mulheres mostra muito da essência do livro (não gostei do título americano – The girl with the dragon tattoo – por ser muito focado em uma personagem e não na história como um todo). O livro é divido em 4 partes – tirando prólogo e epílogo –, cada uma iniciada por uma curiosidade que nos ajuda a entender a crítica do autor; como por exemplo “Na Suécia, 46% das mulheres sofreram violência de um homem”.

É muito interessante ver o modo como Larsson guia as tramas pessoais do jornalista simultâneas às suas investigações, sem causar confusão e muitas vezes misturando-as. Temos vontade de saber quem é o assassino e desvendar o mistério, mas também de saber mais sobre seus relacionamentos.É curioso também acompanhar a transformação de Lisbeth, no início descrita como uma jovem de 24 anos que mais parece uma adolescente, sem amigos ou relacionamentos fixos. Excluida em uma sociedade contemporânea, mas que mantêm valores tradicionais, Lisbeth vive de maneira liberal: não possui opção sexual definida e é freelancer na empresa de segurança devido à sua incapacidade de cumprir horários e socializar com colegas de trabalho

As intenções e os sentimentos de cada personagem ficam muito bem definidos, a excelente descrição de cada um deixa a história bastante verossímil. O livro me prendeu do começo ao fim, não conseguia dormir antes de descobrir mais alguma pista do caso, ou antes de saber qual seria o próximo passo de Lisbeth para resolver seus problemas.

Filmes

Versão sueca

Título original: Män som hatar kvinnor

Ano: 2009

Duração: 152 min

As atuações de Michael Nyqvist (Mikael)  e Noomi Rapace (Lisbeth) são ótimas, mas as vezes a atmosfera do filme fica muito morna devido à falta de expressão de alguns atores, falta vivacidade e fluidez em algumas cenas importantes. Para quem leu o livro é muito mais tranquilo, ele apresenta cenas sérias e escuras, além de recorrer a flashbacks para abordar de maneira mais aprofundada o passado de Lisbeth.

Versão americana

Título original: The Girl With the Dragon Tattoo

Ano: 2011

Duração: 158 min

Dirigida por David Fincher (A rede social, Clube da luta) essa adaptação é muito bem estruturada e baseada não só no livro, mas também na versão de 2009. Daniel Craig é um ótimo Mikael, consegue equilibrar o senso de humor e a seriedade, interpreta muito bem a personalidade do jornalista. Porém, não há dúvidas de que o grande destaque do filme é Rooney Mara, indicação muito merecida ao Oscar de Melhor Atriz, ela entrou completamente na personagem com seu corpo muito magro, seu silencio intimidante e seus olhares fuzilantes. Todos os cenários são muito bem escolhidos, combinam muito com a atmosfera que Stieg Larsson criou no livro, a cenografia combinada com a trilha sonora colaboram com o efeito de suspense.

Os dois filmes são muito parecidos e muito bons, até a duração é praticamente igual (o sueco conta ainda com uma versão extendida de 180 minutos). A versão sueca foca mais na investigação, no desenvolvimento detalhado das pistas e nos esforços de Mikael para encontrar a verdade. Já a versão de Hollywood conseguiu sintetizar melhor a parte investigativa e dar mais atenção à vida pessoal das personagens, a relação do jornalista com sua filha adolescente, sua participação na revista e seu envolvimento com sua sócia Erika Berger. Ambos tiveram que sacrificar alguns detalhes e fazer mudanças (nesse sentido a primeira versão foi mais fiel à história original) e recorreram da mesma forma a revelações que só aparecem no segundo livro da trilogia. As cenas fortes foram mantidas nos dois filmes, executadas de maneiras diferentes mas causando o mesmo impacto.

Livro – Claraboia

Livro – Claraboia

Título: Claraboia (Portugal)

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2011 – (escrito em 1953)

Páginas: 377

Sinopse: “Primavera de 1952. Um prédio numa rua modesta de Lisboa. Narra-se a vida cotidiana de 6 famílias. Silvestre, o sapateiro que admira o mundo por sua janela do térreo. A espanhola Carmen vive ao lado em uma infeliz relação com seu marido Emílio, caixeiro viajante. Justina vive com Caetano no primeiro andar, sempre lamentando a morte da filha. Lídia vive sozinha, mantida por Sr. Morais que a visita algumas vezes. Quatro mulheres convivem no ultimo andar. Adriana, apaixonada pelas sinfonias de Beethoven. Sua irmã Isaura, devoradora de romances. Cândida, mãe das duas e sua irmã Amélia. Anselmo e Rosália admiram a beleza da filha Maria Cláudia, datilógrafa.  O jovem Abel anda procurando um sentido para existencia, aluga um quarto na casa de Silvestre e passa as noites filosofando com o sapateiro.”

Claraboia foi escrito em 1953 por Saramago sob o pseudonimo “Honorato”, mas permaneceu inédito até esse ano. O livro foi mandado para uma editora mas acabou esquecido, anos depois a editora entrou em contato com o autor e ele resolveu não publica-lo. Para os admiradores do autor esse lançamento aparece como um presente.  As histórias de cada família são narradas em ritmo bastante lento, com riqueza de detalhes sobre as características psicológicas de cada personagem e da influência de suas personalidades na casa em que vivem. Algumas palavras desconhecidas são inevitáveis, mas não afetam o fluxo do enredo. Fica cada vez mais interessante aprofundar-se nas histórias dentro de cada porta, janela, entre quatro paredes. Com alguma imaginação podemos montar o cenário, ouvimos o barulho de passos nas escadas, compartilhamos do interesse de cada morador pela vida alheia, passeamos dentro do humilde prédio.

As reflexões a respeito da existencia ficam por conta de Abel em suas conversas com o sapateiro Silvestre, de quem aluga um quarto. “Tem até um personagem que, de alguma maneira, é o Saramago debatendo-se com os seus próprios problemas e, nomeadamente, com um problema que ele nunca resolveu, que é o do optimismo e do pessimismo: se a humanidade é recuperável ou não e que atitude deve cada um de nós tomar, sentirmo-nos responsáveis por aquilo que se passa à nossa volta e intervir, ou acharmos que não temos nada a ver com isso e afastarmo-nos de qualquer intervenção na sociedade.” disse Zeferino Coelho, amigo e editor de Saramago, sobre Abel.

Critica-se a acomodação de duas famílias em seus casamentos infelizes e o apego ao passado. Justina mantêm intactas as roupas da filha Matilde, que morreu nova, vítima de uma doença. Carmen vê suas fotos e lembra dos bons tempos na Espanha. Retrata-se também a busca pela liberdade de cada personagem, cada um é preso a algo, à casa, ao casamento… Mas o único personagem que se considera livre, questiona-se sobre o valor dessa liberdade.

Isaura é tão absorvida por suas leituras que fica transtornada após ler A Religiosa, de Diderot , livro do qual apresenta-se trechos, para o completo entendimento dos motivos do transtorno da menina. São muitas as referências a obras clássicas da literatura, o que me deu mais vontade de ler algumas delas como Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski.

Dois trechos que gostei muito e podem dar uma ideia da linguagem usada no livro:

“Tenho a sensação de que a vida está por detrás de uma cortina, a rir às gargalhadas dos nossos esforços para conhece-la. Eu quero conhece-la.”

“Ter não é possuir. Pode ter-se até aquilo que se não deseja. A posse é ter e o desfrutar o que se tem. Tinha uma casa, uma mulher e um filho, mas nada era, efetivamente, seu. De seu, só tinha a si mesmo, e não completamente.”